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| Jornada para Belém (c. 1320) - Igreja do Espírito Santo, Chora, Turquia |
Histórias bíblicas são sempre bem específicas – uma certa ocasião, um lugar marcado, a interação entre indivíduos específicos. Eles não estão encobertos pelo anonimato, nem livres de riscos. Os protagonistas bíblicos são identificáveis: pobres e poderosos, profetas e governantes. Sabemos seus nomes: Isaías e Acaz, Paulo e Nero, Maria, José, Herodes. Encontramos na Bíblia as histórias de homens e mulheres concretos, convocados muitas vezes peremptoriamente, para "a obediência da fé". (Romanos 1: 5)
A vinda do Messias de Deus é pura graça - uma graça que rompe padrões e poderes estabelecidos, não para destruir, mas para consertar e refazer tudo. "A obediência da fé" é a única resposta possível ao ato cheio de temor que Deus realizou em Jesus Cristo: "segundo a carne, descendente de Davi, segundo o Espírito de santidade declarado Filho de Deus com poder, desde a ressurreição dos mortos". (Rm 1: 3-4)
Estes versos de Romanos ajudam a ampliar nossa apreciação da Encarnação. Pois a Encarnação não é redutível a um ponto isolado e sem extensão na História. A vinda na carne pelo Filho de Deus compreende toda a vida, morte e nova vida de Jesus Messias. A Encarnação culmina na Ressurreição: a plena realização da semelhança de Deus no homem, a divinização da carne.
Somos convocados, como diz a Carta de Paulo aos Romanos, a pertencer totalmente a este Cristo que vem agora no cotidiano da vida. O próprio Paulo, no primeiro verso de sua carta, apresenta-se como escravo (doulos) de Jesus o Messias. Não se pode imaginar uma "pertença" mais radical!
Mas esta pertença a Cristo não é uma ficção forense, nem um mero alinhamento moral de vontades. É uma nova realidade: uma união tão profunda e íntima que pode ser, com propriedade, chamada de "mística". Baseia-se na experiência de mudança de vida promovida pelo Batismo. Paulo lembra aos romanos: "Pelo Batismo, fomos sepultados com Ele em sua morte, para que, como Cristo foi ressuscitado dos mortos pela ação gloriosa do Pai, assim também nós vivamos uma vida nova" (Rm 6,4).
E a conseqüência disso é impressionante: a escravidão servil dá lugar a um despojamento que dá vida. Paulo insiste em seu discurso: "Acaso não sabeis que, oferecendo-se a alguém como escravos, sois realmente escravos daquele a quem obedeceis, seja escravos do pecado para a morte, seja escravos da obediência para a justiça?" (Romanos 6:16) Os cristãos pertencem - espírito, alma e corpo -, não ao pecado, mas a Cristo ressuscitado dos mortos, cujo serviço é a verdadeira liberdade.
Numa das
passagens mais líricas que escreveu, o apóstolo libertado exulta: "Ninguém
dentre nós vive para si mesmo ou morre para si mesmo. Se estamos
vivos, é para o Senhor que vivemos, e se morremos, é para o Senhor que morremos.
Portanto,
vivos ou mortos, pertencemos ao Senhor. Cristo
morreu e ressuscitou para ser o Senhor dos mortos e dos vivos." (Rm 14:
7-9) O Senhor de tudo exige tudo de nós.
A obediência da fé começa com a rendição batismal: marcada, como a de Cristo, não de acordo com a carne, mas de acordo com o Espírito. Mas também implica o consentimento livre para a transformação em curso. Assim, o apóstolo insta a "vos oferecerdes em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso verdadeiro culto. Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos renovando vossa maneira de pensar e julgar." (Rom 12: 1-2)
O apelo do apóstolo à transformação pode ser facilmente abafado pelo dinamismo sombrio de nossa cultura terapêutica contemporânea. E o apelo generalizado à "minha experiência" corre o risco de canonizar a condição atual do indivíduo e excluir a autêntica mudança. Nesse contexto, a retórica cada vez mais rotineira sobre o "acompanhamento pastoral" pode reforçar, em vez de contrariar, essa declinação cultural. O acompanhamento pastoral precisa claramente se incorporar e ser governado pelo desafio à conversão, um imperativo que está no próprio coração do Evangelho: "metanoeite!", ou seja, arrependei-vois. (Mc 1,15)
Pois o “telos” do acompanhamento pastoral não é uma aproximação gradual a um "ideal", por mais sublime que seja. É a entrada em uma nova vida, definida por um novo relacionamento com Jesus Cristo, que transforma a vida.
O Paulo que exortou os romanos à transformação contínua é o mesmo Paulo que testemunhou aos gálatas o alcance radical de tal transformação. "Com Cristo, eu fui pregado na cruz. Eu vivo, mas não eu: é Cristo que vive em mim. Minha vida atual na carne, eu a vivo na fé, crendo no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim." (Gál 2: 19-20). A graça disruptiva conspira para formar um novo eu, transformando Saulo, o perseguidor, em Paulo, o apóstolo.
Mas o apóstolo do “acompanhamento pastoral” não se distingue da comunidade dos crentes. Ele confessa livremente que é seu companheiro no caminho da transformação em Cristo. Na verdade, ele ainda não foi totalmente transformado, ainda não está aperfeiçoado (teleios). “Mas continuo correndo para alcançá-lo, visto que eu mesmo fui alcançado por Cristo Jesus." (Fil 3:12)
Todos nós, que fomos batizados em Cristo Jesus, pertencemos a Ele. Como Paulo, não somos nossos, mas de Jesus Cristo, pois fomos comprados ao preço de Sua Encarnação até a morte e nova vida.
Este mesmo Jesus continua a vir no cotidiano da vida. Assim como veio nos dias assustados de Herodes e nos dias frenéticos de Nero, Ele vem hoje nos dias de Obama e nos dias incertos de Trump - e chama à obediência da fé. Ele vem para habitar dentro de nós, para nos fazer Seus próprios, para que possamos ter a vida verdadeira, e tê-la plenamente.
A obediência da fé começa com a rendição batismal: marcada, como a de Cristo, não de acordo com a carne, mas de acordo com o Espírito. Mas também implica o consentimento livre para a transformação em curso. Assim, o apóstolo insta a "vos oferecerdes em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso verdadeiro culto. Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos renovando vossa maneira de pensar e julgar." (Rom 12: 1-2)
O apelo do apóstolo à transformação pode ser facilmente abafado pelo dinamismo sombrio de nossa cultura terapêutica contemporânea. E o apelo generalizado à "minha experiência" corre o risco de canonizar a condição atual do indivíduo e excluir a autêntica mudança. Nesse contexto, a retórica cada vez mais rotineira sobre o "acompanhamento pastoral" pode reforçar, em vez de contrariar, essa declinação cultural. O acompanhamento pastoral precisa claramente se incorporar e ser governado pelo desafio à conversão, um imperativo que está no próprio coração do Evangelho: "metanoeite!", ou seja, arrependei-vois. (Mc 1,15)
Pois o “telos” do acompanhamento pastoral não é uma aproximação gradual a um "ideal", por mais sublime que seja. É a entrada em uma nova vida, definida por um novo relacionamento com Jesus Cristo, que transforma a vida.
O Paulo que exortou os romanos à transformação contínua é o mesmo Paulo que testemunhou aos gálatas o alcance radical de tal transformação. "Com Cristo, eu fui pregado na cruz. Eu vivo, mas não eu: é Cristo que vive em mim. Minha vida atual na carne, eu a vivo na fé, crendo no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim." (Gál 2: 19-20). A graça disruptiva conspira para formar um novo eu, transformando Saulo, o perseguidor, em Paulo, o apóstolo.
Mas o apóstolo do “acompanhamento pastoral” não se distingue da comunidade dos crentes. Ele confessa livremente que é seu companheiro no caminho da transformação em Cristo. Na verdade, ele ainda não foi totalmente transformado, ainda não está aperfeiçoado (teleios). “Mas continuo correndo para alcançá-lo, visto que eu mesmo fui alcançado por Cristo Jesus." (Fil 3:12)
Todos nós, que fomos batizados em Cristo Jesus, pertencemos a Ele. Como Paulo, não somos nossos, mas de Jesus Cristo, pois fomos comprados ao preço de Sua Encarnação até a morte e nova vida.
Este mesmo Jesus continua a vir no cotidiano da vida. Assim como veio nos dias assustados de Herodes e nos dias frenéticos de Nero, Ele vem hoje nos dias de Obama e nos dias incertos de Trump - e chama à obediência da fé. Ele vem para habitar dentro de nós, para nos fazer Seus próprios, para que possamos ter a vida verdadeira, e tê-la plenamente.
Pe. Robert P. Imbelli
Padre Robert Imbelli é sacerdote da Arquidiocese de Nova York, e Professor Associado Emérito de Teologia no Boston College. É autor de "Rekindling the Christic Imagination: Theological Meditations for the New Evangelization" (Reavivar a Imaginação Crística: Meditações Teológicas para a Nova Evangelização, em tradução livre, não disponível no Brasil)
Padre Robert Imbelli é sacerdote da Arquidiocese de Nova York, e Professor Associado Emérito de Teologia no Boston College. É autor de "Rekindling the Christic Imagination: Theological Meditations for the New Evangelization" (Reavivar a Imaginação Crística: Meditações Teológicas para a Nova Evangelização, em tradução livre, não disponível no Brasil)

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